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Esclarecendo a população
Por Marcelo Iglesias
O Inteligente Vestibulares recebeu nesta quarta-feira, dia
22 de novembro, o jornalista Caco Barcellos, o qual escreveu Abusado, um dos
livros da lista requisitada pelo vestibular da Faculdade Cásper Líbero. O
encontro deu-se na Casa de Portugal, na Avenida Liberdade, em frente ao prédio
do cursinho, e fez parte das palestras que integram mais uma edição do Projeto
de Frente para o Futuro, realização Inteligente vestibulares e OBORÉ com apoio
da ABI -Associação Brasileira de Imprensa e do
jornal Destak.
O evento
teve de ser deslocado das dependências do cursinho, tendo em vista a enorme
procura de alunos e outros interessados em ouvir o jornalista. A requisição de
participantes foi tão grande que mesmo o auditório da Casa de Portugal não foi
suficiente para abrigar a quantidade de gente que foi à palestra de maneira
confortável. O motivo pelo qual a aglomeração de pessoas foi tão grande logo se
descortinou, quando se perguntou quem já havia lido, ou estava lendo o Abusado.
Quase que a totalidade dos mais de 200 participantes incluía-se nas condições
da pergunta.
A palestra
teve início com algumas explicações de Caco sobre os motivos que levaram-no a
escrever tanto o Abusado, como o seu outro livro, Rota 66. A explicação foi: “Eu
decidi fazer os livros, porque eles tratam de temas do cotidiano”. Tal
justificativa, apesar de verdadeira, é preocupante, se pensar o que ela diz nas entrelinhas. Isto
porque o livro Rota 66 trata da violência policial contra jovens, em sua
maioria pobres e negros, e o Abusado fala sobre a inserção do tráfico de drogas
no morro Santa Marta, no Rio de Janeiro. Ou seja, é incômodo ver que tais temas
sejam tão corriqueiros. Esta, aliás, foi uma das críticas que o jornalista fez
à imprensa brasileira. “A imprensa que tem o dever de se incomodar, se incomoda
pouco”, afirmou ao apresentar o dado que no ano de lançamento do livro Rota 66, a polícia matou cerca de
1500 pessoas.
Além disso, outra explanação interessante foi em relação ao
massacre do Carandiru, ocorrido em 1992. De acordo com Caco, os principais
matadores, aos quais ele mesmo havia feito referência no Rota 66, lançado um
ano antes do ocorrido no presídio, eram os homens de frente do Comando de
Operações Especiais (COE) e do Grupo de Ações Táticas Especiais (GATE), que
durante a suposta rebelião no presídio, transformaram-se em uma tropa de choque
e invadiram os pavilhões matando 111 presos, muitos deles com tiros nas costas,
na nuca e em locais que caracterizaram uma execução fria, e não algo decorrente
de algum tipo de reação à entrada das autoridades. Ainda referente ao massacre
do Carandiru, o jornalista disse de maneira indignada que foi só após o
ocorrido naquele começo de outubro de 1992, que a imprensa passou a se
preocupar um pouco com os excluídos.
No entanto, apesar dessa melhoria em relação a parte da
imprensa, Caco afirmou que, hoje em dia, muitas pessoas apóiam uma ação violenta
por parte da polícia. E disse também, que, em certos casos, essa postura tem o
aval da imprensa. Relacionando a isso, o autor disse que se fosse fazer um
livro do estilo do Rota 66, hoje, falaria sobre o Batalhão de Operações
Especiais (BOPE), do Rio de Janeiro, o qual mata cerca de 1300 pessoas por ano,
sendo considerada a polícia mais violenta do mundo. Para dar o nível de falta
de respeito à vida no Brasil, ele fez a comparação entre o estado de São Paulo
e Portugal, os quais têm praticamente o mesmo número de habitantes, e disse
que, no país europeu, nos últimos 20 anos, a polícia matou apenas quatro
pessoas.
O jornalista disse que, na época em que escreveu o livro,
pensou até em abandonar a profissão, dada a frustração com a imprensa de
maneira geral. Isso porque ele sabia que os comandos mentiam quando
apresentavam os mortos como bandidos desconhecidos. Portanto, ele queria
denunciar o grupo de extermínio que existia dentro da polícia. E, na seqüência,
complementou, “Ainda acho que a população sabe muito pouco sobre esses casos de
morte”. E foi a partir de então que o jornalista começou a falar sobre o ponto
chave da palestra, o seu livro, Abusado. A ligação deu-se neste momento,
porque, de acordo com Caco, da mesma maneira que as pessoas falam muita
besteira sobre a forma como a polícia age em relação aos supostos criminosos, a
população também sabe muito pouco e fala também muita coisa errada e, na
maioria das vezes, radicalmente sobre o tráfico de drogas.
O autor de o Abusado afirmou não acreditar que os meios de
comunicação estejam cumprindo o seu papel de informar corretamente sobre as
pessoas e os fatos que acontecem na periferia. Ele disse que um lado da
imprensa é maravilhoso, quando se cobrem fatos ocorridos com pessoas das
classes mais altas da sociedade. No entanto, por incompetência ou por má fé,
não há o mesmo brilho ao se retratarem os excluídos. Por acreditar nisso
decidiu fazer o Abusado, mesmo porque Caco disse que provavelmente em 100 por
cento das famílias a droga está inserida. Isto porque, para o autor drogas como
o álcool e o cigarro não podem ser excluídos do grupo daquelas que são
proibidas por lei, pois, em suas pesquisas na favela Santa Marta, havia 84
locais onde se vendia cachaça e apenas três onde se vendiam as drogas ilegais
(maconha, cocaína, etc). Portanto, o álcool está muito presente na vida dos
moradores da favela. Mesmo porque dos 200 traficantes entrevistados para a
composição do livro, a maior parte deles tinha alguma história familiar de
pessoas vítimas do alcoolismo. Sendo assim, por que não agir da mesma forma que
se age contra os traficantes quando se trata da indústria de bebidas
alcoólicas? Tal questão é importante, uma vez que, ao falar-se em saúde
pública, tem-se que pensar na maioria.
Após isso, Caco falou um pouco sobre a história do Comando
Vermelho (CV), desde suas origens até os dias de hoje. Ele contou que o CV
formou-se na época da ditadura militar e que foi criado pelos guerrilheiros que
combatiam-na, com o intuito de garantir os direitos básicos àqueles que eram
presos pela polícia da época. Contudo, muitos desses componentes da chamada
primeira geração foram presos, associando-se com criminosos comuns, os quais
viriam a formar a segunda geração do CV. Foi esta geração que trouxe a onde de
seqüestros, assaltos de grande porte, assaltos a bancos, etc (todas essas
táticas aprendidas com os guerrilheiros). Por fim, falou-se sobre a terceira
geração, a qual é a envolvida com o tráfico de drogas e que dominou os morros
do Rio de Janeiro, e sobre a qual trata a maior parte do livro Abusado.
A partir daí, falou-se sobre o tráfico de maneira geral.
Caco contou sobre as “responsabilidades” dos traficantes dentro das favelas,
dentre as quais destacou a compra da polícia, a compra e a manutenção das
armas, a demissão ou morte de servidores do tráfico, etc. Além disso, ´pe o
tráfico que paga as benfetorias no morro, como enterros, ambulância, festas,
etc, uma vez que o Estado não entra na favela se não for pra guerrear contra os
traficantes. Por isso, é ingênuo acreditar que todo o poder dos traficantes
acontece de forma alheia às autoridades. Isso só ocorre, porque além de eles
serem importantes para as pessoas que vivem nas suas áreas de influência, eles
compram autoridades (policiais, juízes, carcereiros, etc) para poderem atuar
livremente em determinadas regiões.
Algo interessante ao que nos alertou o jornalista foi que,
em uma favela, o único endereço que existe dentro dos registros do Estado é o
da associação de moradores. Afinal, todos os barracos e casas mais ou menos bem
construídas, onde moram as pessoas de lá, são todas ilegais.
Ao falar sobre o trabalho de reportagem para escrever o
Abusado, o autor disse que esta foi com certeza a reportagem que mais o
surpreendeu, pois ele percebeu que muito do que se fala sobre o tráfico, as
favelas e seus moradores é mentira, é infundado. Por exemplo, não há de maneira
nenhuma a imposição dos traficantes para que novos meninos entrem para o seu
grupo. Ao contrário, são esses meninos e às vezes os seus pais que vão pedir para
o chefe do tráfico conseguir uma vaga para o filho nesse mundo. Ou as garotas
que querem namorar traficantes. Elas não sofrem nenhum tipo de assédio dentro
da favela, apesar de saberem que dividem o namorado com outras tantas
namoradas. No entanto, é mais importante a segurança nessa atmosfera. A única situação em que o respeito às
namoradas dos traficantes é perdido é quando o poder dentro da favela muda de
mão. Assim, se você tem qualquer tipo de vínculo com o tráfico, tem-se a
garantia de que você será sempre ajudado. Ou seja, o assédio é oposto. Não são
os traficantes que buscam os moradores, mas sim estes que procuram os
primeiros.
Quando falou sobre as razões porque meninos entra para o
mundo do crime, Caco disse que são muito naturais e compreensíveis. Ele disse
que, com certeza, é porque tais garotos não querem repetir a trajetória dos
pais, os quais trabalharam 50 anos e só tiveram miséria. E frente a esse motivo
os pais nada podem fazer, visto que é graças a essa atividade do filho que se é
possível ter algum luxo que seja.
Ao contar isto, o jornalista defendeu que diferentemente do
que se diz por aí, o problema não habita sobre uma questão estrutural. Isto
porque, de acordo com o palestrante, todos os 200 traficantes entrevistados
tinham em suas histórias de vida o perfil de uma mãe empregada doméstica. Ou
seja, o tráfico mora junto aos ricos na figura da empregada, uma vez que eles
dificilmente fazem algo para melhorar as condições de vida dela. Há, portanto,
uma incompetência do empresariado em oferecer empregos indignos, os quais não
pagam o que o tráfico se dispõe a pagar, mas que têm lucros cada vez maiores.
Assim, a empregada doméstica funciona como informante, uma vez que, dentro da
casa dos mais abastados, ela tem acesso a informações, correspondências, dados
econômicos, etc.
Dessa forma, o tráfico sustenta-se e sustenta os moradores
de dentro das favelas. Como exemplo disto, tem-se o fato de que toda a favela
de Santa Marta foi pavimentada graças ao dinheiro vindo do tráfico de drogas.
Por fim, ainda referente a este tema, e mais uma vez comparando-nos com os
países europeus, Caco disse que no Velho Mundo não se tem empregada doméstica.
Ter alguém trabalhando em casa com essa função significa que você tem dinheiro
sobrando e que, portanto, pode ajudar alguém que não tenha tanto quanto você.
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