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"COM
A BOCA NO TROMBONE"
Vereadora Soninha participa do Projeto “De frente para o
Futuro”, parceria da Oboré e do Inteligente Vestibulares, e discute temas
polêmicos como humanização da mídia e descriminalização da maconha.
Por Geoffrey Scarmelote
O Projeto de Frente para o Futuro: Faculdade/Mercado de
Trabalho foi criado a partir da parceria entre a Oboré – Projetos Especiais em
Comunicação e Artes, e o Inteligente Vestibulares, no Projeto Repórter do
Futuro, Módulo Descobrir São Paulo / Descobrir-se Repórter, em 2005.
Na atuação conjunta deste evento, voltado a complementar a
formação dos interessados em se tornar verdadeiros jornalistas, percebemos que
os vestibulandos podem desenvolver a prática reflexiva antes de compor os
quadros de uma faculdade de nível. Além disso, pensamos em uma forma de manter
contato com ex-alunos aprovados nos cursos de comunicação, para proporcionar
uma soma de conhecimentos. Nesse contexto, foi criado o Projeto de Frente para
o Futuro.
Para o ciclo de palestras 2006, contamos com a participação
da vereadora Soninha, do PT. Em encontro realizado no dia 26 de setembro na
sede do Inteligente Vestibulares (no bairro da Liberdade, região central), ela
nos ofereceu uma vasta discussão sobre preparação para o vestibular, dicas para
uma boa formação profissional e humanização da mídia.
“Terminei o Ensino Médio há 22 anos. Estava grávida de sete
meses e queria muito cursar Educação Física na USP. Mas só entrei na faculdade
seis anos depois, sei como é ansiedade de quem vai prestar vestibular agora. As
coisas demoram a acontecer, fiquem tranqüilos”, aconselha a ex-apresentadora da
MTV.
Apesar da vontade de trabalhar com esportes, Soninha sabia
que esse é um mercado para poucos. Assim, procurou outras atividades de que
gostava e se encontrou nas artes. “Os dias mais felizes da semana durante o
colegial eram aqueles em que havia aula de Artes e Educação Física”, brinca.
Nessa época, ela entrou para um grupo de teatro amador e esperava profissionalizá-lo, porém o projeto não vingou.
Também tentou montar uma banda musical, sem sucesso.
Entretanto, a experiência com teatro fez surgir um convite
para atuar em um curta-metragem da Escola de Comunicação e Artes da USP (ECA –
USP). “Quando me convidaram para fazer esse curta, amei a idéia. Mas trabalhei
muito mal (risos). Era boa atriz no teatro, mas nesse curta eu fui péssima! Foi
o primeiro trabalho de todos ali, primeiro roteiro, primeira experiência de
direção. No final, não tinha gostado do meu trabalho como atriz, mas amei a direção
de fotografia”.
Esse encantamento levou Soninha a prestar vestibular para
Cinema, na própria ECA. “Peguei os livros do colegial e fui estudar. Como fiz
Magistério, tive que correr atrás das matérias que não tive, como química e
física. Consegui passar no vestibular. Entrei na faculdade com 23 anos, duas
filhas e minha classe nem carteira de motorista tinha ainda.”
No ar, a carreira profissional - Foi a partir daí que a
carreira de nossa convidada deslanchou. Por mais que o mercado de cinema
estivesse restrito, Soninha produziu um curta-metragem executado por uma
cooperativa de alunos de cinema. Ali, fez contatos com profissionais da área
cultural e de jornalismo. A proposta para trabalhar como assistente de produção
da recém-criada Music Television Brasil, a famosa MTV, não demorou a chegar: “A
MTV estava no ar há um mês quando comecei a trabalhar lá. Eu assistia aos
programas e não tinha a menor vontade de estar ali, era tudo muito ‘E aí,
galera, como vai?’, padrão Disney Channel, sabe?. Mas a gente [os funcionários
da MTV] poderia melhorar tudo aquilo”.
Para ela, a emissora precisava de um propósito, de uma
programação com informações interessantes, de uma cultura pop com significado.
Esse pensamento somou-se à necessidade que a rede possuía de aumentar o
faturamento.
O resultado foi o programa Teleguiado, apresentado por Cazé
Peçanha. Através de serviço 0900 (que cobrava determinado valor pela ligação,
além dos impostos), os telespectadores poderiam se inscrever para um sorteio.
Como prêmio, os contemplados pediriam o videoclipe de sua preferência para ser
exibido: “O alvo do Teleguiado era o público que ligava todo o dia para o Disk
MTV, mas não via seu clipe favorito entre os mais pedidos do dia. Era uma forma
da direção agradar aos telespectadores e conseguir mais dinheiro”, explica.
Através do exemplo dessa atração, Soninha ingressou no
debate pela humanização da mídia. “Logo no primeiro sorteado já tivemos
problemas. Isso porque o Cazé precisava enrolar um pouco o cara na linha, para
dar tempo do estagiário ir até a fitoteca e procurar o clipe pedido. Mas o que
a gente não esperava era que o menino não estivesse em casa. Foi a avó dele
quem atendeu. Em vez do Cazé desligar, ele começou a conversar com ela – ‘A
senhora tem quantos anos? Assiste televisão? Ah, Sílvio Santos! Mas a senhora
não acha aquelas pegadinhas todas absurdas? A senhora acha certo as pessoas se
humilharem daquele jeito para ganharem cem reais?’ - se
fosse hoje, com certeza ele perguntaria sobre os Sanguessugas, Mensalão,
Operação Tabajara para compra de dossiê. E tudo isso num programa de
videoclipes! O diretor poderia muito bem ter falado para o Cazé desligar e
sortear outra pessoa, mas não fez isso. Nunca podemos desconsiderar, na mídia,
a interferência do fator humano e do acaso”, completa a palestrante.
Mas o que aconteceu naquela Época? - Após quase dez anos na
MTV, Soninha foi contatada pela Rede Cultura e não hesitou em aceitar a
mudança. “Naquela época, apresentava o Barraco MTV, programa semanal de
debates. A direção da emissora achava que eu era muito séria e que não podia
mais falar sobre cultura pop, como se quem gostasse do pop também não gostasse
de papo-cabeça. Aí me aparece a Cultura com um projeto diário, exibido ao vivo
e que abordaria vários temas, como esportes, política, meio ambiente, além de
música e entretenimento. Claro que aceitei”, ela conta.
A lua de mel com a emissora da Fundação Padre Anchieta durou
apenas um ano e meio: a apresentadora foi demitida em razão de reportagem
veiculada pela Revista Época, em 2001, com a matéria de capa “Eu fumo maconha”.
A proposta do veículo era discutir a descriminalização da
maconha, assunto que chamou a atenção de Soninha. “Acho necessária a quebra de
estereótipos. Quem fuma maconha ou é aquele coitado em clínica de desintoxicação
ou é bandido, delinqüente, um problema na sociedade. Não é assim, um monte de
gente fuma. A gente nunca vai conseguir discutir a lei em termos mais honestos
enquanto houver esse tipo de pensamento”.
A matéria contou com depoimentos de dez pessoas, dentre elas
um cirurgião, um advogado, uma empresária e o cartunista Angeli. Soninha
admitiu publicamente que fumava maconha como uma informação adicional para
justificar sua posição no debate. “Dei uma entrevista para a Revista Época para
participar de um debate mais claro, menos histérico. O que a capa fez foi um
desserviço à discussão em torno da descriminalização da maconha. Foi um
escândalo”.
Ainda assim, ela reconhece o esforço da repórter que a
entrevistou. “Resumir duas horas de entrevista em cinco parágrafos, além de ser
difícil, geralmente não gera um bom resultado. Mas o resumo publicado estava
muito bom, não foi culpa da repórter que me entrevistou e nem da editora da
matéria. O responsável pela descontextualização das declarações foi o editor-chefe,
que tinha quatro opções de capa para escolher e elegeu a mais escandalosa”,
endossa. “Se eu fiquei chocada, imagina a minha mãe, meu sogro, minhas filhas,
minha avó. Só me interessava admitir que eu fumava maconha para o mundo inteiro
porque estava na hora de desconstruir o estereótipo do usuário.”
Soninha também comentou a demissão da Rede Cultura. “Eles me
perguntaram como venderiam o ‘Ilha Rá Tim Bum’ [programa infantil produzido
pela emissora] se no quadro de apresentadores deles havia alguém nas minhas
condições. Achei absurdo, não tinha nada a ver. Se eles tinham preocupação do
que a minha declaração poderia influenciar os jovens, me demitir não ajudou em nada. O que a Cultura
disse aos jovens foi ‘Eles têm razão, essa delinqüente está incentivando o uso
de maconha!’. Apenas reforçaram a mensagem errada e essa postura é totalmente
nociva para a sociedade. Se eles se preocupassem com a interpretação que o
público teria daquilo, eles deveriam desfazer o equívoco, e não endossá-lo.”
E agora? - Após explanar o caso, Soninha nos falou sobre a
repercussão que ele teve em sua vida profissional. Recebeu apoio da ESPN
Brasil, emissora em que trabalhava como co-editora e apresentadora e a manteve
no quadro de funcionários; participou de programas como ‘Fala que eu te escuto’
(da Rede Record e voltado para o público evangélico), Ratinho e até mesmo da
Rede Vida: “Uma emissora católica, que veiculava um programa da Polícia Militar
apresentado por um capitão fardado, queria me ouvir”.
Além disso, surgiram convites para trabalhar na Rede Globo,
Bandeirantes e na própria Record. “Não aceitei por vários motivos. O da Globo
seria uma ‘trairagem’ com a ESPN. Foi às vésperas da Copa do Mundo de Futebol
de 2002, e a gente não tinha direito de retransmitir nem os treinos. Daí eu ia
virar pra emissora que me apoiou e falar ‘Oi, vou pra Globo, tô indo pro
Japão!’. Além de achar antiético, na ESPN eu tinha liberdade para falar o que
pensasse, e não sei se continuaria assim na Globo ou em qualquer outro local”,
esclarece.
Atualmente, Soninha escreve uma coluna semanal de esportes
para o jornal Folha de São Paulo, que também mantém seu blog on-line (www.blogdasoninha.folha.blog.uol.com.br),
comunica-se através do portal www.soninha.com.br e exerce seu primeiro mandato
como vereadora em São Paulo
– ela ficou entre os dez candidatos mais votados no pleito de 2004.
Carismática e receptiva, Soninha ainda respondeu perguntas
dos jovens presentes, que abordaram temas como política, sucesso e a posição da
mídia nos diversos veículos.
Agradecemos a todos os participantes e, principalmente, à
Soninha, por ter contribuído de maneira inteligente e livre com a formação das
novas mentes que serão o futuro da comunicação em nosso país.
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